Atuei como mediador no IV Seminário de Administração de Condomínios promovido pelo CRA-MG – Conselho Regional de Administração de Minas Gerais quando uma discussão sobre elevadores me fez pensar em algo maior.
O tema era manutenção, Engenharia Diagnóstica, coisas técnicas. Mas a conversa foi chegando a um ponto que não consegui soltar: a gente confunde papel com realidade. Confunde registro com garantia. Confunde a existência de um documento com a existência de segurança.
A pergunta que surgiu foi simples de formular, mas difícil de responder: se um elevador tem documentação regular, inspeções em dia e manutenção registrada, isso significa que ele é seguro?
Minha resposta instintiva era sim; disse no palco. Acredito que a maioria das pessoas responderia o mesmo. Quando você vê uma placa identificando a empresa responsável, um laudo técnico válido, um histórico de vistorias, o raciocínio natural é: está em ordem, está seguro. Faz sentido, parece lógico.
Mas levei essa questão ao engenheiro mecânico Ronaldo Chartuni Bandeira, presidente da ABEMEC-MG, e ele me devolveu com uma provocação que merece atenção: essa conclusão precisa ser revisada com mais cuidado.
E ele tem razão.
Não porque os documentos não importam. Importam, e muito. Eles são indispensáveis para rastreabilidade, fiscalização, governança e conformidade. Ninguém razoável vai argumentar que é melhor não ter registros. O problema está em outro lugar: no momento em que começamos a atribuir ao documento um papel que ele nunca foi capaz de cumprir, o de garantir o comportamento futuro de sistemas complexos.
Documentos registram o passado. Segurança existe no presente e precisa continuar existindo no futuro.
O próprio Ronaldo me contou que, foi à Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais tratar especificamente disso. O assunto era a Lei nº 10.654, de 2013, que alterou a legislação sobre elevadores vigente desde 1999 e passou a exigir a afixação de cartazes indicativos nesses equipamentos. A intenção é boa. O efeito colateral, perigoso: o cartaz na parede cria, mesmo que involuntariamente, a sugestão de que o sistema é seguro porque existe um registro formal associado a ele.
É exatamente aí que está a ilusão.
Aqui, como Gestor de Negócios Imobiliários, digo com clareza: essa confusão entre documentação, conformidade e segurança não é um problema exclusivo de elevadores. Ela está presente em condomínios, empresas, instituições públicas e organizações de praticamente todos os setores. E entender o que essa confusão custa, em risco real, em responsabilidade mal alocada, em decisões tomadas com base em papéis em vez de evidências, talvez seja um dos desafios mais sérios da gestão contemporânea.
O documento diz o que foi feito. Não diz o que vai acontecer e essa distinção importa mais do que parece.
Porque a boa gestão não consiste apenas em verificar se os documentos existem. Consiste em compreender o que eles representam, reconhecer seus limites e identificar quais riscos continuam existindo apesar deles.
Talvez a maturidade de uma organização não esteja em sua capacidade de produzir documentos, mas em sua capacidade de não os confundir com a própria realidade.
A placa informa. O registro comprova. O laudo documenta. Mas a segurança continua sendo um processo, jamais um papel afixado na parede.
Ao final daquela discussão, saí com mais perguntas do que respostas. E isso, em minha experiência, costuma ser um excelente sinal.
Pretendo continuar provocando o engenheiro mecânico Ronaldo Chartuni Bandeira sobre esse tema, porque a reflexão está longe de se esgotar nos elevadores. Ainda há muito a explorar sobre a diferença entre conformidade e segurança, sobre o viés psicológico criado por certificados, selos e documentos formais, e sobre o que referenciais modernos de gestão de riscos, como a ISO 31000, podem nos ensinar.
Talvez o mais interessante seja perceber que o elevador funciona como uma metáfora perfeita da gestão contemporânea. Trata-se de um ativo físico do qual pessoas dependem diariamente, submetido a manutenção periódica, normas técnicas, legislação, inspeções, contratos e responsabilidades técnicas e civis. Ao mesmo tempo, concentra riscos operacionais, riscos reputacionais, custos, documentação e decisões permanentes de gestão.
Por isso, quanto mais reflito sobre o tema, menos acredito que esta seja uma discussão sobre elevadores.
Talvez seja uma discussão sobre como administramos riscos, interpretamos evidências e construímos confiança em sistemas complexos.
E essa conversa está apenas começando.


