Quando fui eleito síndico pela primeira vez, em 2009, eu acreditava que entendia o que significava administrar um condomínio.
Naquela época, meu trabalho era relativamente previsível. Convocar assembleias, acompanhar manutenções, cobrar inadimplentes, resolver conflitos entre vizinhos, ou seja, garantir que o cotidiano continuasse funcionando sem grandes sobressaltos. E, durante muito tempo, isso pareceu suficiente. Os condomínios também eram diferentes. Menos complexos. Menos dependentes de fornecedores especializados. Menos pressionados por exigências técnicas, jurídicas e regulatórias. A experiência prática resolvia boa parte dos problemas que apareciam.
Eu mesmo acreditava nisso. Quando surgia uma decisão difícil, costumava recorrer ao que havia aprendido nos anos anteriores. Observava situações parecidas, lembrava soluções que já tinham funcionado e seguia em frente. Na maior parte das vezes dava certo. Mas, olhando para trás, percebo que a realidade foi mudando de forma silenciosa. Não aconteceu de uma vez. Foi acontecendo reunião após reunião, contrato após contrato, orçamento após orçamento.
Em determinado momento comecei a perceber que algumas decisões já não podiam ser tomadas apenas com base na experiência acumulada. Lembro de situações em que a proposta mais barata parecia a escolha óbvia. Depois vieram os aditivos, os problemas de execução, os retrabalhos e os custos que ninguém havia previsto. Também vi equipamentos que pareciam funcionar perfeitamente até o dia em que deixaram de funcionar. E quando isso acontecia, a economia feita na manutenção preventiva se revelava uma ilusão bastante cara.
Foi nesse tipo de situação que comecei a entender que administrar um condomínio estava deixando de ser apenas uma atividade operacional. Porque, no fundo, o que estava sendo administrado não eram elevadores, portões, fachadas ou contratos. Era patrimônio.
Talvez essa percepção tenha se tornado mais clara para mim porque o imóvel sempre ocupou um lugar importante na história da minha própria família. Como acontece com milhões de brasileiros, a casa nunca foi apenas um bem material. Ela representava anos de trabalho, planejamento e renúncias. Por trás de cada porta existe uma história parecida. Quando um condomínio é mal administrado, o problema raramente fica restrito às áreas comuns. O impacto alcança algo muito maior. Alcança o patrimônio de dezenas ou centenas de famílias.
Foi a partir dessa compreensão que passei a enxergar manutenção, planejamento e preservação patrimonial de outra forma. Não como despesas inevitáveis. Mas como decisões estratégicas. Ao mesmo tempo, outra mudança estava acontecendo. Os moradores começaram a exigir algo que, anos antes, nem sempre era considerado essencial: entender. Não apenas saber quanto foi gasto. Entender por que foi gasto. Não apenas conhecer a decisão. Entender o raciocínio que levou até ela.
Durante muito tempo imaginei que a confiança surgia quando os problemas eram poucos. Hoje penso diferente. A confiança parece nascer quando as pessoas conseguem enxergar o processo, inclusive quando existem dificuldades no caminho. Talvez por isso transparência tenha deixado de ser um diferencial. Ela passou a ser uma condição básica para a legitimidade da gestão.
A tecnologia também participou dessa transformação. Durante anos convivi com arquivos físicos, pilhas de documentos, contratos guardados em pastas e informações espalhadas por diferentes lugares. Era assim que a administração funcionava. Em julho de 2020 decidi eliminar completamente o papel na gestão dos condomínios sob minha responsabilidade. Naquele momento, a decisão parecia principalmente operacional. Hoje percebo que era muito mais do que isso. Quando uma informação pode ser encontrada em segundos, a própria qualidade das decisões muda. Quando o histórico está organizado, os erros ficam mais visíveis. Quando os dados estão disponíveis, a memória deixa de ser a única ferramenta de gestão. A experiência continua importante. Mas ela deixou de caminhar sozinha.
Ainda assim, quanto mais observo essa evolução, mais uma coisa me chama atenção. O maior desafio continua praticamente o mesmo de quando comecei. Pessoas. Os sistemas ficaram mais sofisticados. Os controles ficaram melhores. As informações ficaram mais acessíveis. Mas nenhuma tecnologia resolveu o problema de um conflito entre vizinhos. Nenhum software substituiu a necessidade de ouvir. Nenhuma plataforma aprendeu a construir consenso. Talvez exista uma ironia nisso. Quanto mais avançamos em tecnologia, mais valiosas se tornam habilidades que não podem ser automatizadas. Interpretar, dialogar, mediar e construir confiança.
Quando recordo aquele primeiro mandato de 2009, tenho a impressão de que a atividade continua sendo a mesma e, ao mesmo tempo, é completamente diferente. Os condomínios se tornaram estruturas mais complexas. As responsabilidades cresceram. Os riscos aumentaram. As exigências se multiplicaram. Mas talvez a transformação mais importante não tenha acontecido nos edifícios. Talvez ela tenha acontecido na forma como passamos a enxergá-los. Porque, em algum momento do caminho, deixamos de administrar apenas espaços compartilhados e passamos a administrar organizações que concentram recursos, patrimônio, expectativas e relações humanas.
E eu ainda me pergunto se estamos apenas aprendendo a lidar com essa mudança ou se ela está apenas começando.


